Qual é o número do sapato do defunto? - Por ALBATH DA CRUZ

Pouquíssimas vezes tenho iniciado as minhas reflexões a partir de uma pergunta, apesar de ser amante da filosofia e como é bem sabido, esta classe gosta muito de questionar.

Iniciei este texto com um questionamento para demostrar o meu espanto, e indignação em relação a concepção da lista para o casamento tradicional, conhecido cá entre nós por lobolo. A mesma continha orientações dirigidas para a família do noivo bastante estranhas para um entendimento mais lógico e racional como em Descartes (Filosofo).

Durante as minhas vivências aprendi muito sobre o homem e a cultura, mas nunca tinha ouvido falar sobre o que vi na lista de lobolo de um amigo, que me deixou de boca aberta. Uma verdadeira aberração!

Qual é o número do sapato do defunto?

Não quero com isto desrespeitar os aspectos culturais de algumas sociedades Moçambicanas. Mas quero chamar atenção ao facto de existirem situações caricatas, disfarçadas de cultura e tradição, que de forma incoerente, extravasam os limites da lógica humanamente aceite.

Meus caros e minhas queridas: A tradição não deve em momento algum, justificar aspectos desumanos e inaceitáveis. Ora vejamos, na tal lista de noivado, havia um trecho sublinhado em que o noivo deveria comprar roupas, sapatos entre outros artigos para os avós da noiva “em memória”. Isso mesmo: para os avós já falecidos. Para minha admiração, vem ainda em letras garrafais, o número do sapato calçado pelos avós apesar de serem defuntos. Agora a pergunta que não quer calar, é sem dúvida para onde serão encaminhados os sapatos e aquelas roupas?

Talvez seria ideal ou correcto, dizer simplesmente que deve-se comprar roupas para os avós da noiva, de forma simbólica ou ao menos sem fazer menção de que estes estão em memória.

Reconheço ainda a ideia de John Mbiti, filósofo africano ao afirmar que os mortos influenciam na vida dos vivos, mas não no sentido de vestirem roupas ou até receberem sapatos como oferendas, porque não terão como colocá-los; dado que, Severino Ngoenha dizia que os mortos nada podem mais podem fazer...só os vivos podem decidir por eles, razão pela qual alguns escolhem o local para a sua sepultura mas terminam sepultado em outros locais distintos dos desejados.

Há muitos mitos, receios e questões pouco claras, que estão conectadas a tradição. Espero que com esta reflexão as culturas sejam cada vez mais dinâmicas e ponderadas. Que todas as coisas pouco construtivas, mudem para que ninguém sofra, devido a aspectos culturais penosos e que fazem pouco sentido. Que seja Deus todo-poderoso a orientar os passos de cada um de nós e não a presunção carregada de um egoísmo camuflado.

Por: ALBATH DA CRUZ


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