Maldita morte, até sempre Chico António!

 

Nos desdobramentos do crepúsculo, a melodia de Moçambique chora a perda inestimável de Chico António no dia 13 de Janeiro, cuja voz singular transcendeu a esfera musical, tornando-se uma sinfonia eloquente e erudita. Dotado de um vocabulário luxuriante, Chico entrelaçou palavras como fios preciosos, criando uma linguagem resplandecente em cada nota da sua música magistral, especialmente na magnum opus “Baila Maria”, “Antlissa Maria”, “Mercandonga”, entre outras músicas de sua autoria.

Sua narrativa existencial é um enigma intrincado, uma trama que desvela a vicissitude de um artista que, em meio às encruzilhadas de Maputo, antiga Lourenço Marques, perdeu-se ainda menor em idade e viveu de sacrifício de um para o outro lado e não apenas geograficamente, mas nas dobras do desconhecido, ignorando o paradeiro de sua linhagem sanguínea. Somente a terra de Magude era o farol a guiar suas raízes esquecidas.

Neste lamento, lamentamos a efemeridade da vida que não nos concedeu a oportunidade de proferir, em vida, a epifania de que Chico António não era um estrangeiro na vastidão do mundo, mas sim um patriarca de almas que se encontravam nas plateias, deleitando-se com a majestade de suas performances e exaltando as divindades das suas composições.

Chico António nasceu a 13 de Maio de 1958 no distrito de Magude na Província de Maputo, com 9 anos de idade tornou vocalista num grupo musical de mais de 50 pessoas. No grupo Instrumental número 1, RM e Orquestra Marrabenta Star de Moçambique o homem cantou e encantou juntamente com vários artistas de renome na cultura moçambicana com base em ritmos tradicionais. Dentre várias músicas, a “Baila Maria” que cantara com Mingas, uma das melhores cantoras de Moçambique ganhou em 1990, o primeiro revelação na Radio Francesa. Chico estudou música na França e era um dos melhores guitarristas de Moçambique.

O que nos resta se não guardar o seu legado cantando suas músicas e contando a sua história de vida. Maldita morte, que nos arrebata o privilégio de amá-lo mais, de compartilhar a efervescência de convívio que agora reside apenas nas memórias entrelaçadas com suas canções. Acreditamos, como prece sussurrada ao vento, que Chico António parte para um recanto celestial, pois sua amabilidade transbordante merece um repouso suave. Até sempre, Chico António, pois sua música é eterna, ecoando nos corações que se embalam ao som da sua harmonia.

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